Lendas e tradições

O ilustre Professor da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, de seu nome Carlos Simões Ventura, menino de roda, criado na povoação de Vale Cântaro, assim como a sua Irmã Hermínia, Professora. Primaria durante muitos anos na vizinha povoação do Loureiro, teve um dia a feliz ideia de recolher os ditos característicos e as cantigas da povoação onde, anos antes tinha sido educado e protegido por uma ama benfeitora.
 
Aquele mestre em 1910 e 1911, ouviu de uma menina que se chamava Maria do Carmo, neta da senhora que tinha sido sua ama, muita cantigas (das quais apenas apresentamos uma pequeníssima amostra) que eram também comuns em outras povoações vizinhas e com as quais se divertiam, de modo espontâneo, ao domingo à tarde e por ocasião das festas anuais ou noutras situações de trabalho ou qualquer outro ajuntamento.
 
O minha bella menina
O minha bella Olatar
Diga-me quanto custou
A barra da sua saia
 
Se eu tivesse pena de oiro,
Comprava papel de carta,
Com sanguedas minhas vetas
Eu te escrevia uma carta
 
Ó minha mãe quem me dera
O que a minh’alma deseja:
As portas do céu abertas 
Como estão as da Igreja
 
Tenho dentro do meu peito
Laranja, jinja, limão
Para ter a fruta toda
Falta-me o teu coração
 
O mundo é uma vinha
Cada cepa um christão
Vem a morte, faz vindima
Não procura geração
 
Lealdade, lealdade
Bem leal eu tenho sido!
Hei-de sê-lo até a morte
Meu amor para contigo
 
Toma lá este raminho
Que eu no jardim apanhei;
Elle vem orvalhadito
De lágrimas que eu chorei
 
Suspirando e dando ais,
Anda o amor pela rua;
Suspira quando quiseres,
Eu por ora não sou tua
 
Estava p’ra te escrever
A noite depois da ceia,
 
Caiu-me a pena da mão,
Apagou-se-me a candeia.
 
 
Relativamente as lendas e histórias que se contam sobre subterrâneos tesouros escondidos lá no alto, no Castelo, em Abrunheira, José Carlos Patrício repõe a verdade dizendo “um dia veio parar-me as mãos o segredo do Castelo Adeus sonho, adeus meninice. Felizmente que á beleza do sonho de infância se substituiu a beleza que a Ciência também tem. Então é assim. O nosso Castelo é um Castelo que não é porque foi construído para servir a Ciência. Foi apenas (e muito foi) a «marcar da Raposeira» […]. Corria o ano de 1804, Reinava s Rainha D. Maria I. Ela não, porque estava louca, no seguimento das atrocidades que a Revolução Francesa (1789) havia infligido aos reis de França, seus parentes. Em vez dela, como Regente, seu filho D. João VI. Em 1807, Junot começaria a 1ª Invasão Francesa. Por enquanto a Ciência era uma forte preocupação. Em 17 de Março em 1804, o Visconde de Anadia assinava a seguinte carta, enviada a José Monteiro da Rocha.
 
Meu Mestre, Amigo e Senhor que muito venero e estimo.
 
Recebi a carta de Vossa Senhoria de 10 presente de que fiz todo o apreço e dezejando muito abzequiar a Vossa Senhoria e concorrer quanto em mim couber para adiantamento das Sctencias; mandando ordem a Francisco Quaresma, administrador da minha Quinta da Várzea, para se facilitar a construção do marco ou Bliza, no sitio que Vossa Senhoria indicar para uso do Observadorio dessa Universidade em cujo esplendor me interesso tanto, quanto apeteço, ter ocasiões de mostrar a Vossa Senhoria a particular estimação e affecto com que sou de Vossa Senhoria discípulo e amigo. Visconde de Anadia.
 
[…] Disseram-me (ou sonhei) que um homem tinha de ir, por noite de luar, ou noites de tempestade, acender uma luz no alto da torre. Essa luz era avistada do Observatório e permitia determinar o erro do azimute.
 
A «marca da Raposeira» cumpriu a sua missão científica por muitos anos até que novos aparelhos científicos a vieram destronar da sua função. Se vocês tiverem filhos pequenos, não sei se será melhor conta-lhes tudo sobre o Castelo, ou se será mais belo deixá-los a sonhar com subterrâneos e tesouros escondidos lá no alto”.
 
JOGOS E BRINQUEDOS TRADICIONAIS
De acordo com as memórias dos mais velhos, recuperaram-se os 
jogos de malha e de cartas (sueca), as damas e o dominó.